segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Inauguração do Sesc Osasco








Nesse último final de semana rolaram as "Intervenções do Ovo" na inauguração do Sesc Osasco. Disfarçadas de atrizes, as atrizes do Coletivo Teatro Dodecafônico tomaram a sala de leitura da nova unidade providas de ovos, cebolas e Clarice Lispector!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Conversas com A.: Diário de Bordo 5

Criar um mapa de deslocamentos, uma trajetória no espaço fazendo com que o corpo comece a dar vida a uma cena que está em gestação e tem, nesse momento, o trabalho corporal como eixo central de estudo. Cada cena apresentada nessa atmosfera vai ganhando espaço e revelando caminhos, oportunidades de exploração, esboços iniciais que serão aperfeiçoados e aprimorados com o tempo. Quanto maior a clareza da trajetória e dos gestos, maior o envolvimento criado entre ator e expectador. Entre um ponto e outro, um gesto inesperado comunica uma ideia, desperta uma sensação, fala por si. A sensação criada por um instante abre portas para o novo. A pesquisa, o estudo, a dúvida, a incerteza, o experimento, o compartilhamento, o retrabalho, o treinamento... tudo se junta e segue nascendo. Criando base para receber e incorporar tudo mais que está por vir. Personagens continuam seus desenhos. Uma guardiã do tempo, uma mulher que nos conduz por espelhos, outra que esqueceu todos os nomes, um homem caixa, um louco preso no tempo, uma chapateira maluca, uma condutora em um jogo de xadrez, um cavaleiro clarinetista, uma inventora que guarda com ela um Humpty Dumpty, uma lagarta... Seguimos com Alice:

ali
só
ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse

se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce

ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece
(Paulo Leminski)

Descobrindo a cada passo o que ali se viu.

Silvia Camossa

quinta-feira, 29 de julho de 2010

OvOsascO

Intervenções do Ovo, no SESC Osasco

Conjunto de intervenções cênicas criadas pelo Coletivo Teatro Dodecafônico, reagindo ao universo epifânico da escritora Clarice Lispector. A proposta é transpor personagens ou situações sugeridas pela literatura para performances de curta duração.
Sala de Leitura: dias 31/07 e 1º/8, sábado e domingo, 10h, 11h30, 12h30 e 14h30.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Conversas com A.: Diário de Bordo 4

Seguimos trabalhando, construindo, dialogando. Uma das formas mais bonitas de diálogo é a inspiração que um pode levar para o outro. O último ensaio ganhou riqueza pelas cenas apresentadas pelos atores. Em cada cena, um novo olhar. Uma nova perspectiva que me fez sentir vontade de inventar sem a intenção de levar estas palavras brincantes para a dramaturgia. Por um momento, apenas brincar...

Para Bia
Atenção! Ritmo! Ação! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Não podemos perder tempo! Não podemos perder tempo! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Umdoistrêsquatro! Agora façam de um a dois minutos de silêncio e ponderem... Só perde tempo quem está perdido.

Para Serginho
O homem cinzento achava tudo muito pesado e carregava caixas e caixas de mal humor. Vivia com a testa franzida, o sorriso esquecido, o rosto caído, a coluna contrariada e os pés adormecidos. Certo dia, o homem cinzento encontrou um outro homem que também carregava caixas. Mas um homem muito diferente, todo colorido, que carregava caixas e caixas de bom humor. O homem colorido vivia com a testa relaxada, o sorriso falante, o rosto cativante e os pés sempre brincantes. O homem cinzento achou o homem colorido muito esquisito. E perguntou: “- Como você consegue ser assim?”. “Eu sou a bagagem de mim mesmo”, respondeu o homem colorido, certo de que suas caixas, um dia, o fariam voar.

Para Claudinha
Eu só acredito que eu existo quando me olho no espelho. Mas sempre que me vejo, nunca sei quem sou. Você sabe quem eu sou? Pra que eu existo? Engraçado esse negócio da gente existir, mesmo sem saber porque.

Para Pedrinho
Quando eu nasci, o sol cantou uma canção tão linda que eu nunca mais esqueci. Era noite e o sol cantava dentro de mim: seja feliz! Seja feliz! Seja feliz! Eu não tinha a menor ideia do que era ser feliz. Mas guardei aquela sensação de alegria. Felicidade é quando o sol canta dentro da gente.

Para Ana Flavia
Hoje eu acordei “desnomada”. Sabe o que é ser “desnomada”? É não saber mais o nome de nada, nem o meu próprio nome eu sei... Acho que eu vou ter que aprender tudo outra vez. Já pensou? Ter que aprender tudo outra vez? Vou contar um segredo, mas ninguém pode saber: às vezes, algumas coisas que eu aprendo não fazem o menor sentido. Você acha que todas as coisas que você aprende fazem sentido? Qual o seu nome? Você é animal, vegetal ou mineral? Ah! Que divertido!

Para Ligia
Ontem eu me transformei em um gato cra cra cra, crítico analítico e político. Não gostei de ser crítico. Depois, me achei muito analítico. E justamente por ser tão analítico, desisti de ser político. Resolvi então me transformar em um pato quá quá quá. Engraçado, charmoso e blá blá blá. Mas me achei um tanto falso e um pouco sem graça, perdi o charme, não disse mais nada e quis virar a casaca. Foi então que eu tive uma grande ideia. Eu me transformei em um sapato em dia de festa. Dancei a noite inteira até o amanhecer! Requebrei as cadeiras até o sol nascer. De manhãzinha eu já não tinha mais sola, nem salto. Eu havia me transformado em meu próprio pé. Estou gostando de ser pé. Amanhã eu vou sair andando por aí. Vou experimentar correr... E depois... quem sabe eu possa me transformar em um lindo caminho... Eu quero ser o meu próprio caminho!

Para Paulina
(locução de rádio)
Torre... Cavalo... Torre... Bispo... Cavalo... Rainha... A Rainha corre para o ataque! Dribla um! Dribla dois! Dribla três! Manda cortar a cabeça do lateral direito! Dribla quatro, cinco, seis! Manda cortar a cabeça do goleiro! Dribla sete, oito e passa a bola redondinha para o Rei que... zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz... O Rei está dormindo na boca no gol! A Rainha grita com o Rei! O Rei não sabe o que está acontecendo! Ele está com sono! A torcida delira! O juiz apita o final do jogo! A Rainha manda cortar a cabeça da mãe do juiz! A torcida está mais que enlouquecida. Os peões querem tomar o poder! Saem do banco de reservas e partem para o ataque. Eles derrubam o Rei que mal tinha acordado. O Rei cai! A Rainha grita com os peões. Os peões dão as costas para a Rainha! O bispo foge comendo pão com manteiga. A torre se desmancha inteira. O cavalo inventa de ser alado e sai voando aerado. A Rainha está sozinha! Gooooooool dos peões! A Rainha é atirada para dentro do gol! Chuuuuuupa!

Para Samir
Conversa no Malucômio.

- Ele disse que precisa de uma explicação?
- Mas por que ele precisa de uma explicação?
- Você não sabe por que ele precisa de uma explicação?
- Quem pode saber por que ele precisa de uma explicação?
- Ninguém sabe por que ele precisa de uma explicação?
- Ele disse que precisa de uma explicação?
- Mas por que ele precisa de uma explicação?
- Você não sabe por que ele precisa de uma explicação?
- Quem pode saber por que ele precisa de uma explicação?
- Ninguém sabe por que ele precisa de uma explicação?

(continua até que alguém consiga saber quem é ele e porque ele precisa de uma explicação...)

Para Katia
Conversa no Malucômio 2

- Toda vez que eu fizer assim ó... você apita!
- Assim como?
- Assim: xbadjlsjgisjlejlsidlejsidlnelsdindim!
- Ok, pode deixar...
- Então vamos lá. Lá vai: xbadjlsjgisjlejlsidlejsidlnelsdindom!
Pausa.
- Ora! Mas por que você não apitou?
- Porque você não fez como o combinado. Você não fez assim!
- Assim como?
- xbadjlsjgisjlejlsidlejsidlnelsdindim!
- O que foi que eu fiz?
- Você fez: xbadjlsjgisjlejlsidlejsidlnelsdindom!
- E qual é a diferença?
- Em vez de terminar com dindim, você terminou com dindom!
- Mas isso não é importante!
- Isso é muito importante!
- Desimportante!
- Muito importante!
- Você é maluco!
- Você também!
- Tá... Vamos brincar de outra coisa?

Para Anna Dulce:
Lá vai o trem! Lá vai o trem! Lá vai o trem! Lá vai o Zé Ninguém! Zé ninguém! Zé ninguém!
Lá vai o trem! Lá vai o trem! Lá vai o trem! Lá vai o Zé Ninguém! Zé ninguém! Zé ninguém!
Parem o trem! A partir daqui, Zé Ninguém segue viagem como bagagem.

Valeu, pessoal!

Silvia Camossa

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Disfarce do Ovo em Ouro Preto

De 22 a 29 de maio vai rolar a "VI Semana de Artes" da UFOP, Universidade Federal de Ouro Preto. E, nós do Coletivo, participaremos da programação de três formas:

-com a mesa "Performance, Cinema e Dança: características da cena teatral contemporânea"
-com a oficina "O Espaço e a Letra”
- e, ainda, com duas apresentações de “O Disfarce do Ovo”, ambas no dia 27, às 19h e às 21h.

Quem estiver por lá, apareça!

A programação completa da mostra, que está bem bacana, você acessa aqui.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Conversas com A.: Diário de Bordo 3













"The painter is not someone inspired, but one capable of inspiring others"
Salvador Dali
Imagens coladas em extensas folhas de papel. Variadas e diferentes referências, muitas delas retiradas das artes plásticas. Olhos coloridos. Observação alimentada. Experimentação aguçada. Gestos fortalecidos. Lentamente, a vitalidade das imagens vai sendo captada por corpos que brincam de inventar. Um Rei faz que vai, mas recua e quase cai. Uma rainha acredita ser miss. A outra quer cortar tudo e não sabe ver ninguém feliz. Ei! Ei! Ei! Tchoca, tchoca, tchoca! Póim! Por que a torre está nervosa? Póim! Que torre mais nervosinha! O bispo caminha desacelerado. Não sabe se reclama ou se come melado. O jogo tem tudo para terminar aloprado, mas resolve ser fim sem haver terminado. Imagens gravadas em corpos pesquisando seus novos papéis. Cada novo dia sedimenta a jornada. Cada nova noite estrela uma risada. O trabalho cresce e sabe que está apenas começando.
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Silvia Camossa

terça-feira, 13 de abril de 2010

Conversas com A.: Diário de Bordo 2

Jogos e deslocamentos, gestos e movimentos. O vigor criado pela força coletiva impressiona e surpreende, desperta o riso, diverte e seduz. A Rainha! O Bispo! Hahaha! Que cavalo mais engraçado! Outra Rainha! Cortem a cabeça! A torre! Hahaha! Esse Bispo fala sozinho! Esse é o Rei? Esse... quem é???? Na dúvida, o jogo para. A diversão esfria. O que era divino vira vazio. O que era inspiração torna-se nada. Na sequência, novos jogos. Fila de peões, três peças protagonistas na linha de frente. Mas o que fazem os peões? Assistem ou atuam? Há espaço para se buscar o aperfeiçoamento do desenho, a sabedoria do gesto enxuto e preciso, o argumento pleno que brinca e preenche o espaço com a grandeza de quem transcende a palavra e invade a imaginação, a sensação. Implícito nos jogos de cada corpo está a imagem e tudo o que ela espelha e desperta em nossos olhos. Através do corpo do outro, o espectador enxerga o invisível. A Alice que acaba de se tornar gigante. Depois outra, tão pequena que nenhum olho seria capaz de ver. Mas nós sabemos que ela está lá. Estamos vendo tudo! Através da vivacidade e precisão de corpos de atores que nos convidam a enxergar o impossível e a experimentar o jogo de imaginar. Nessas horas, até o céu resolve brincar. Para onde este grande jogo irá nos levar? Alice, quem te vê, quem te viu! Maiúscula, depois minúscula, em inúmeras mutações experimentadas em uma cinzenta tarde de abril.

Silvia Camossa

No domingo passado, Sílvia e eu estivemos no evento que rolou no Centro Britânico, organizado pela Sociedade Brasileira Lewis Carroll. Foi interessante, especialmente a fala de uma artista plástica, Adriana Peliano, sobre as diferentes ilustrações já feitas sobre o Alice.

Ao lado, uma ilustração de Lewis Carroll que ela nos mostrou; as imagens dele são bem interessantes, poderíamos procurar mais.
Abaixo um imagem de autoria da própria palestrante, que está expondo seu material no Freddie & Grace (rua pedro taques).





Um ilustrador que achei interessante na fala de Adriana: Arthur Rackham (por volta de 1907).






sexta-feira, 9 de abril de 2010

Algumas imagens interessantes da Rainha de Copas

Seguem algumas imagens pesquisadas para a Rainha de Copas - não sei se tanto para a construção de figuras, mas como pesquisa de cores, estímulos plásticos (figurinos, maquiagem, espaço). Divirtam-se.























quarta-feira, 17 de março de 2010

Conversas com A.: Diário de Bordo 1



Finalizamos a nossa análise e reflexões sobre o texto de “Alice através do Espelho”. Junto a comentários sobre trechos específicos de cada capítulo que chamaram a nossa atenção, percepções sobre o que desejamos construir foram se constituindo de forma clara e merecedora de um registro inicial. A seguir, registro alguns pontos que começam a ser traçados como alicerce do nosso processo criativo.

TEATRO INFANTIL
Entendemos o “fazer teatral” para o público infantil com o mesmo respeito, maturidade e qualidade que geralmente são destinados ao teatro adulto. Nossa intenção é criar uma peça para que crianças e adultos possam vivenciar juntos um percurso, uma trajetória artisticamente enriquecedora.

CONVERSAS COM A.
Entendemos a criação de “Conversas com A” (título provisório) como uma reação à obra de Lewis Carrol. Não se trata de uma simples transposição ou livre adaptação, mas sim de uma peça calcada na reflexão sobre a obra, uma “criação própria” que deseja dialogar com o universo do autor. Neste contexto, dois aspectos já se configuram como diretrizes de construção da nossa criação:

1. A compreensão do universo lúdico, surreal, geralmente “non sense” do autor como um descondicionamento do olhar para a construção de uma nova ordem. Queremos construir uma trajetória capaz de surpreender pela quebra do lugar comum. Esta intenção do “fazer teatral” é o que mais nos liga à alma da infância, ao olhar livre e espontâneo das crianças.

2. A convergência do processo de trabalho com a razão de ser da obra: em ambos os casos a palavra chave é o descondicionamento. Isso parece ser precioso na essência do nosso trabalho. Não é freqüente termos um processo de criação - os jogos do olhar trazidos pela Verô, buscando novas relações com a ocupação do espaço e com a arquitetura, uma exploração cênica renovada... - totalmente a serviço desta nova ordem que queremos criar, dialogando com o conteúdo, com a dramaturgia. Vou deixar aqui registrada uma frase da Paulina: “Construir um percurso em que atores e público vivenciem juntos uma experiência transformadora”. Acho que podemos ter esta frase como o nosso norte, a estrela que queremos seguir. Quanto mais perto desta estrela conseguirmos chegar, creio que mais feliz será o nosso processo criativo.

NÚCLEO DE ATORES: RIQUEZA PURA.
O que vocês podem criar coletivamente, unindo inspirações, sentimentos, gestos e movimento é algo que eu não terei palavras para descrever. Vocês são a imagem que a palavra, a música, o figurino, a luz... desejarão namorar.

Beijocas, fé e pé na tábua!

Silvia Camossa

Alice dali

Salvador Dali pintou Alice e seu país das maravilhas.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Ovo por aí

Matéria e entrevista sobre a encenação "O Disfarce do Ovo" para o site Colherada Cultural.

Conversas com A.

O Coletivo Teatro Dodecafônico foi selecionado pelo Sesi na categoria "Inéditos SESI Vila Leopoldina 2010". Em setembro de 2010 estrearemos um novo experimento cênico com o nome provisório de "Conversas com A.". Novos artistas agregaram-se ao coletivo para essa empreitada! Em breve colocaremos aqui mais detalhes sobre esse novo projeto! Entre estudos e ensaios para o "Conversas com A.", seguimos apresentando "O Disfarce do Ovo". Evoé!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

1° ensaio "Conversas com A."

Em novembro o Coletivo Teatro Dodecafônico realizou o 1° ensaio\experimento de "Conversas com A." (nome provisório da próxima encenação), pelas ruas do Bixiga, dentro do "2° Encontro Independente do que Possa Acontecer". Era a primeira vez que atores, encenadora e diretores de arte se encontravam para trabalharem juntos. Tudo ao vivo pra quem quisesse ver e interagir.








Registro fotográfico por Renata Velguim.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ilustrada, Folhateen e TPM

No dia 15 de janeiro de 2010, rolou uma matéria para o site da Revista TPM.

Reação Em Cena. Leia a matéria aqui.







E nos dias 17 e 19 de janeiro, sairam notinhas na Ilustrada e na Folhateen.


sábado, 6 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Nossa passagem pelo Sesc Pompeia



Atriz 1: O ovo é a mais perfeita das arquiteturas!
Atriz 2: Viva o Ovo Bo Bardi!
Atriz 1: Lina Bo Bardi tinha inveja da galinha!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Grupo ou Coletivo - uma questão de tempo

Em 2008 escrevi esse resumo expandido no qual refleti sobre as duas intâncias: o grupo e o coletivo. A partir da pergunta: “coletivo é apenas um novo nome para grupo?”, procurei esboçar o conceito de coletivo, confrontando-o com o de grupo. Atraídos por uma investigação estética bem definida que seria desenvolvida como experimentação prática de uma pesquisa de mestrado, um amontoado de jovens foi reunido no que se escolheu intitular: Coletivo. É essa experiência, nutrida pela observação de um contexto de organização e proliferação de grupos de teatro atualmente na cidade de São Paulo, que inspiraram a discussão desses conceitos como relativos ao tempo e não ao espaço. Hoje, atuando com o Coletivo Teatro Dodecafônico, vejo essa teoria sendo escrita através da experiência.


Para aqueles que cursam uma Universidade de Artes Cênicas fazer parte de um grupo é uma condição quase definitiva para se alcançar uma carreira bem sucedida. Principalmente para quem espera desenvolver a linguagem teatral atuando nos processos de criação de forma ativa, ou seja, para quem pretende ser sujeito do teatro que cria. Estar em um grupo é um cartão de apresentação, uma forma de explicitar suas escolhas artísticas e reconhecer seus pares. É inegável a importância do trabalho grupal na formação das identidades, pois do encontro com o outro, com o diferente, temos condições de fazer escolhas, que nos aproximam ou nos distanciam. Essa convivência faz do outro um parâmetro para atitudes, um referente, um modelo. No ambiente do grupo, à semelhança do ambiente familiar, o sujeito pode ser moldado como artista e como homem, por meio de identificações e negações.
Nos últimos vinte anos, há um esforço bastante significativo da classe teatral paulistana no sentido de se organizar: o Movimento da Arte Contra a Barbárie e a elaboração e aprovação da Lei de Fomento são exemplos também da iniciativa dos grupos teatrais. A atenção pública voltada a editais, cujos benefícios contemplam todo o processo de criação teatral, da pesquisa à circulação, são provas contundentes da força de diversos artistas organizados em grupos lutando por objetivos comuns. Fala-se em mais de 500 grupos de teatro atuando hoje na cidade de São Paulo, um verdadeiro renascimento do teatro de grupo, um momento de efervescência teatral. Exemplo disso é a ampliação do projeto Teatro Vocacional, levando aulas de teatro e acompanhamento de grupos para todas as Casas de Cultura e C.E.U.s da cidade. Tanto na esfera dos artistas profissionais quanto na formação de jovens artistas, a opção por participar de um grupo é visto por alguns como a condição mais legítima, hoje.
A história do teatro, desde seu surgimento remonta a uma esfera coletiva, associada às festividades e à família. Dois exemplos são suficientes para trazer à tona esse contexto histórico: o teatro grego e a Commedia dell’Arte, ambos referem-se à celebração e ao ambiente coletivo, familiar e público. A história de Maurice Durozier, ator do Théâtre du Soleil , filho da quinta geração de uma família de atores também ajuda a refletir sobre as características dos grupos de teatro nos últimos tempos. Mesmo quando os atores não vêm de famílias tradicionais, recebendo o legado da representação de seus pais e avós, a estrutura de grande parte dos grupos teatrais é similar à estrutura de uma família. Paralelamente, as novas gerações de atores são filhas de estruturas desfeitas ou de uniões temporárias. Se não cabe aos grupos teatrais preencherem essa lacuna estrutural, de que modo a crise da família pode afetar tais agrupamentos artísticos?

Se fosse uma questão de espaço, grupo seria sedentário.
Durante a graduação, uma das afirmações mais contundentes que ouvi foi: “nem todo amontoado de gente é um grupo!” No momento em que a frase foi dita, toda a classe estava muito angustiada com as próprias cobranças de formar grupos com as turmas nas quais lecionávamos. Entendemos mais tarde que a decisão de se formar um grupo não é do professor/ encenador, nem de algum líder, nem de uma pessoa só, mas de um interesse comum despertado em muitos indivíduos ao mesmo tempo. Um grupo não é formado de imediato, depende de um desenvolvimento no tempo, como se de repente as pessoas percebessem que estão sendo, agindo como um grupo.
A definição de grupo encontrada no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa se refere “a conjunto de pessoas ou coisas dispostas proximamente e formando um todo”, “conjunto de pessoas ou coisas que têm características, traços, objetivos, interesses comuns”. No final do verbete, há ainda a seguinte indicação: do italiano gruppo, entendido como “nó, conjunto, reunião”. Pertence à tradição teatral, a organização em grupo. No entanto, essa nomenclatura foi bastante utilizada a partir da década de 60, momento da criação de grupos que correspondiam ao pensamento e ao comportamento vigentes na época. Também aparecem como uma resposta a uma estrutura mais antiga, mas ainda existente, de teatro comercial que apresenta o nome de um ator ou atriz importante acompanhado por um “grande elenco”.
O conjunto de pessoas com interesses comuns que caracteriza o grupo teatral tem como modelo de estruturação grupos de longa vida, aqueles que permanecem juntos vinte, trinta anos. Talvez a principal característica desses agrupamentos seja sua relação com o tempo, sua formatação duradoura. Esse modelo de grupo estável, com atestado de qualidade garantido pelo tempo de trabalho tem um papel muito importante na organização dos artistas como classe de trabalhadores. Participar de um grupo é um meio de inserir-se no mercado das artes, colocando-se em condições de concorrer aos editais de fomento à produção das criações. Essa estrutura de grupo passou a ser considerada o ideal almejado por muitas pessoas, que mesmo antes de traçarem seu percurso coletivamente, esperam encontrar seus pares para fundar um grupo teatral. Algumas vezes esse “nó” permanece atado apenas na figura do diretor ou de um número restrito de integrantes em torno dos quais gravitam atores passageiros. A nomenclatura (grupo) e a contagem do tempo, entretanto, permanecem, provavelmente porque o tempo de sobrevivência dos grupos conta pontos a favor na luta pelos editais de cultura. Exemplo disso é a brochura de comemoração de 10 anos de um evento promovido pelo SESC intitulado Palco Giratório, no qual todos os grupos são inicialmente apresentados pelo tempo de permanência juntos .

Se fosse questão de espaço, coletivo seria nômade.
Na pesquisa de mestrado que desenvolvo na Universidade de São Paulo pretendia usar o cinema como um modelo de composição a ser utilizado em processos artístico-pedagógicos, por isso foi preciso reunir pessoas dispostas a experimentarem a pertinência dessa proposta. Ao longo de um ano e meio de experimentação prática dessa pesquisa, além da criação de uma encenação, muito tempo foi dedicado à construção da logística desse agrupamento, que escolhi não chamar de “grupo”. Não gostaria de impor essa condição (sermos um grupo!) para que essas pessoas desconhecidas trabalhassem em conjunto e, ao mesmo tempo, gostaria de reiterar meu intento de agregar interessados por cinema, que quisessem fazer teatro. Convencida de que outras pessoas se interessariam pela dupla cinema/teatro, espalhei cartazes pela Cidade Universitária convidando toda e qualquer pessoa (acima de 18 anos) para integrar um coletivo. Esse coletivo recebeu o nome de Jogos do Olhar, pois seria convidado a olhar as cenas dos filmes para compor as cenas teatrais. O Coletivo - Jogos do Olhar foi definido pelas pessoas que o fizeram, tomou o corpo de quem o experimentou, por isso teve características específicas. Como participante dele, tomo-o como referência, como ponto de partida e de apoio para esboçar esse conceito. Muitas vezes nos perguntamos: É só um novo nome? O novo nome pressupõe quais mudanças nos modos de produção?
A idéia de coletivo de artistas é muito comum nas artes plásticas, de onde as artes performáticas tomaram o conceito emprestado. Geralmente, os coletivos se reúnem com o intuito de ocupar determinados espaços ou discutir determinados temas de interesse comum. No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa a definição de coletivo “compreende ou abrange muitas pessoas ou coisas”, “pertence a um povo, a uma classe, a um grupo”. Do latim collectivus significa aquilo “que agrupa, ajunta”. A palavra “coletivo” é apresentada como antônimo de individual.
Um coletivo, de acordo com as referências explicitadas acima, é uma possibilidade de experimentar com um amontoado de gente, o que não substitui a vivência em grupo, mas nos convida a explorar outros modos de estar junto. Seu modo de formatação é por meio de “empreitadas”. Escolhe-se um foco de interesse, um local para ocupar, ou tema agregador de grupos e artistas “avulsos” e num tempo pré-estabelecido desenvolve-se o trabalho. O Coletivo sobrevive o tempo que dura a empreitada, tem hora de começar e de acabar. Procura inserir-se no mercado pela quantidade de pessoas que agrega e pelo peso de seus trabalhos juntos, pois não pode comprovar a excelência de seu trabalho pela permanência no espaço/tempo. Não se confunde com uma criação coletiva nos moldes dos anos 60, uma vez que têm as funções muito bem definidas. Está claro quem é o diretor, o ator, o iluminador, o programador visual. Por isso aproxima-se de um processo colaborativo, pois pessoas de áreas diversas criam coletivamente, cada qual se responsabilizando por sua especificidade. Não está distante de um grupo no que diz respeito a envolvimento e dedicação. Trata-se, portanto de uma estrutura mais fluida. Se o grupo fosse um casamento, o coletivo seria um namoro, um convite a enlaces mais temporários, sujeito a repetições e reorganizações de tempos em tempos.

Verônica Veloso - integrante do Coletivo Teatro Dodecafônico

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Disfarce do Ovo no Sesc Pompéia










Curta temporada no SESC Pompéia
Dia(s) 17/01, 24/01 e 31/01
Domingos, às 17h30.


"O Disfarce do Ovo" é um conjunto de respostas do Coletivo Teatro Dodecafônico a dois contos de Clarice Lispector, "A Legião Estrangeira" e "O Ovo e a Galinha". A ideia da peça é descobrir formas de transpor para a cena a "experiência clariceana", a partir de temas, imagens, sensações, abstrações e epifanias que emergem da leitura de seus escritos. A dramaturgia é composta por sete quadros e propõe uma escritura por imagens. O corpo é o suporte e o condutor para o acontecimento da experiência. Com Coletivo Teatro Dodecafônico. Limite de 30 expectadores por apresentação. Peça itinerante, ínício em frente ao Espaço de Leitura.


R$ 8,00 [inteira]
R$ 4,00 [usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante]
R$ 2,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]

Vai lá!